
... anjo que cai das alturas desamparado em direcção ao chão duro e impiedoso... quem te mandou, anjo imprudente, acreditar que podias? Quem te disse que podias ser anjo, quem te disse que os anjos existem? Olha ao teu redor... o mundo é feio e sem sentido... onde julgavas tu que ias, como pudeste acreditar que ascender acima da podridão era possível? Estavas condenado ao que a dura realidade te demonstra agora... a realidade dos factos inequívocos... e o anjo despenha-se da sua nuvem, as penas esvoaçando num rasto acima de si, perdidas no infinito para sempre.... anjo em queda, numa queda desamparada a alta velocidade... as asas despedaçando-se em penas desgrenhadas, o sangue escorrendo em pequenas gotas, a partir dos poros deixados em aberto pelas penas arrancadas pela violência da velocidade, o ar sendo entrecortado destruindo o corpo frágil do anjo que tentou voar acima do que lhe era permitido... fustigado por relâmpagos, mal tratado por ventos indecisos que o empurram com violência ora para cá, ora para lá... o corpo quase morto, abandonado pela esperança, permanece em queda livre...
