
Um gato velho de rabo partido trepa ao telhado, e por baixo do telhado é ensurdecedor o ruído, como se não fosse apenas um gato velho de rabo partido no telhado... como se acima da minha cabeça murmurassem também fantasmas velhos, que se libertam das traves velhas, de madeira apodrecida, as memórias dos acontecimentos, sentimentos, padecimentos... vozes ecoando de forma incoerente na minha mente cansada e fustigada de tentar compreender... na casa velha do jardim, onde se arrumam as ferramentas e as ideias, onde em vão me refugio dos sons exteriores, para que se não misturem com os interiores, para que se não me enlouqueça a mente de vez... a cada passo do gato velho, gordo e pesado de rabo partido no telhado, soltam-se os fantasmas que ali fui escutar... com quem ali me fui confrontar... o peito enche-se de coragem; quero ouvir-me a mim mesma sussurar... não, não tenho medo de mim, não posso ter; tenho medo, mas não posso ter, decido não ter, porque não quero, porque se temer a minha própria sombra, passarei a vida acocorada num canto da casa, tremendo a cada leve ruído, mesmo o das folhas oscilando suavemente lá fora ao som da melodia suave da leve brisa do vento do final do verão... não, não, não... venham a mim, fantasmas... não me deixo enganar pela triste aparência translúcida, lembrando o nada, lembrando o vazio, lembrando as coisas frustrantes que foram, e deixaram de ser, mas deixaram um rasto de sombra, um aroma que entra pelas narinas e enebria os sentidos, ofuscando-os, tapando a luz que ilumina a verdade a meu respeito... quero ver a dura realidade... o meu pior, quero ver... quero saber, por mais cruel e inconcebível e doloroso... quero sentir a dor que se sente quando se esvaziam os sacos cheios de ventos sibilantes, assustadores, mas vazios de coisa alguma, que são os fantasmas dos nossos medos... e se embate de frente com a verdade a nosso respeito... I am not affraid.